Nos meus projetos acostumei a usar a correia de transferência de movimento do tipo S3M com alma de fibra de vidro. Ela é feita de poliuretano, relativamente barata e permite uma precisão mínima. Não preciso muita eficácia nem precisão nos meus projetos, mas tem vezes que o motor tem uma força e uma posição que requer uma transferência que não seria possível com correias sem dentes.
Encontrei dois fornecedores de correias do tipo S3M que me atenderam bem. Tem a Borrachas Dina, na rua Piratininga, e a Correias Schneider, próxima ao metrô Armênia; ambas em São Paulo. Antes de (re) encontrar estes fornecedores comprei pela internet uma correia que não me atendeu bem: era muito difícil de cortar e emendar, já que tinha alma de aço.
ilustração de como emendar uma correia do tipo S3M de PU
Tentei, depois de ver dicas na internet, emendar usando um corte em diagonal da correia. Achei muito ruim fazer o corte, difícil de conciliar os dentes da correia ao colar.
Da maneira como sugiro na ilustração, a força de tração, que fica aplicada em perpendicular à correia, tensiona menos a parte que recebe cola. A cola usada é do tipo super bonder mesmo e funciona muito bem. Só é necessário fazer o cálculo correto dos tamanhos a se executarem os cortes na correia.
Esta aventura começou quando, durante o período de quarentena, entrei em um grupo de WhatsApp com pessoas cheias de vontade de interagir mas sem assunto específico. Típico de amigos saudosos que se encontrariam num bar e tomariam uma cerveja enquanto passam um tempinho sendo amigos. É legal. Para quando não se tem muito assunto ou resposta, lança-se um sticker. Essas figurinhas de WhatsApp são evolução dos emojis que são evolução dos emoticons. 🙂 Ufa. Mas agora elas trazem mensagens e memes, expressam sentimentos efusivos ou só lançam frases bestas. A certa altura da ‘conversa’ apenas estas figurinhas apareciam na tela. A comunicação no whatsapp possibilita o uso de texto, som e imagem. Mas as figurinhas são uma categoria a parte. Elas não necessariamente querem comunicar algo. Por vezes, apenas desejam evocar alguma sensação ou reação (no caso das figurinhas, costumam provocar o riso). Este tipo de comportamento é comum à arte. E assim tive a ideia de usar o ambiente do WhatsApp como meio para expor arte usando as figurinhas como suporte.
A arte contemporânea permite que a produção aconteça não apenas fixada aos meios, mas também sendo simples subversão e estranhamento dos meios. Assim dá certo existir rádio-arte, por exemplo. E assim a auto-referência pode existir como arte e também se justifica a tomada de um meio como arte. E a tomada do WhatsApp como meio de circulação artística, por si, já seria uma obra contemporânea interessante. Mas no caso do que fiz juntei a isso a qualidade estética das imagens que estão sendo colocadas em circulação.
A originalidade sempre foi uma qualidade apreciada na arte. No livro ‘ A grande feira: uma reação ao vale-tudo na arte contemporânea ‘ (Civilização Brasileira – 2009) Luciano Trigo olha para esta qualidade colocando que muitas obras contemporâneas são apenas boas ideias, apenas piadinhas, boas sacadas, objetos com grande carga de originalidade – mas não grandes obras de arte. Não que eu considere de grande importância levar em consideração a opinião deste crítico para pautar minha produção, mas a essa colocação poderia responder, no caso de ser feita para a minha obra, que também foram exploradas as qualidades técnicas e teóricas solicitadas para conseguir um resultado estético relevante.
As técnicas exploradas, neste caso, passam pelo uso de softwares gráficos e da programação. Mas esta subversão do meio – no caso, o aplicativo de comunicação WhatsApp – tem um impacto maior na produção contemporânea do que a qualidade gráfica em si. O WhatsApp há muito tempo é usado como veículo de circulação dos convites para os locais de fruição das obras, não como o próprio meio de fruição das obras.
Como foi feito
Então pensei em fazer uma coleção de figurinhas abstratas, desarticuladas da função de comunicação que o meio solicitava e, assim como toda imagem abstrata, sem a carga da representatividade. Como demoraria um tanto para produzir isso, solicitei a meu amigo Rukin, grande parceiro de produção, que fizesse parte da coleção – o que ele fez com grande qualidade.
O WhatsApp gosta que se produzam figurinhas para ele. Por isso disponibilizou um kit quase pronto em que se seguem as instruções (muito bem detalhadas) e já tá lá o pacote. A parte mais complicada é baixar e usar o Android Studio, que requer uma máquina com bastante memória.
A intenção inicial era ter disponível na loja do Android o pacote de figurinhas agrupadas para que elas circulassem o máximo possível. Mas nesta etapa do trabalho vi que precisaria pagar uma taxa de US$25 para ter direito a publicar lá. O dólar está muito alto, então resolvi disponibilizar o arquivo .apk aqui mesmo e quem quiser baixa e instala no celular. Esta solução não é a melhor para a divulgação e circulação, mas a realidade do artista brasileiro não é muito cheia de dólares então é isso que teremos no momento.